DTRL-Desafio de Terror Rascunhos Literários

"A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo" -- H.P. Lovecraft

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A Chama de Nossas Almas
 
Abertura
 
  Aquela menina, simples, magra e machucada pela fome e violência, testemunhou o nascimento da entidade. Levantou-se do pântano de sangue, rastejou-se para o monte mais alto da região e, ao se erguer, gritou.
 
  Foi o berro mais doloroso que o mundo já presenciou.
 
  Talhou a partir de galhos de um velho carvalho, ali mesmo, uma lamparina simplória e rústica. Levantou-a, diante um campo de batalha, e, depois de um cântico de outro tempo, absorveu toda a luz do Universo, da humanidade e da estrela-mãe.
 
  Nasceu a escuridão. Findou-se a guerra.

 
 
  Ato I
 
  Tudo, mas tudo mesmo, era engolido pelas trevas.
 
  Naquele vale morto, num ponto vantajosamente alto, ele repousava sob uma grande rocha em forma de unha. Ao longe, além da Floresta Treviana, via uma das famosas Fogueiras das Paixões: uma luz pequena, mas insistente, que contrastava com a vasta escuridão, iluminando as habitações toscas de pessoas que buscavam o falso conforto daquelas chamas.
 
  Passion. Esse foi o nome que se deu, pois, de fato, não recebeu nenhum quando nasceu. Sempre era frio, sempre, com exceção dos dias que trocava confidências com outros andarilhos, nas encruzilhadas da vida, mas estava sozinho e, naquele momento, abraçava suas pernas, repousando enquanto contemplava uma das únicas coisas belas daquele mundo: as estrelas e seus variados desenhos.
 
  Continuaria procurando por ela… Não iria desistir.
 

 
  Ato II
 
  Mexeu com vigor, provou a sopa fumegante, fez careta — mais pela quentura do que pelo sabor, bem mediano, por sua vez, mas apreciável — e serviu em dois pratos fundos. Sentiu o calor nas mãos. Alegrou-se por um breve momento quando atravessou a sala e viu sua mãe esboçar um sorriso frágil. Iria comer, afinal. Acreditou, realmente acreditou nisso.
 
  Entretanto, quando soltou a louça, quando os minutos se transformaram em horas, quando aquela quentura abandonou a sopa; percebeu que nada havia mudado. Continuaria sem comer.
 
  — Por quê? — questionou em vão.
 
  Sentou-se perto da velha lareira, cabisbaixo. Sua mãe estava definhando aos poucos, como se tivesse abandonado a vontade de viver. Mas ele, ah, não largaria isso por nada.
 


  Ato III
 
  Coração acelerado. Pupilas dilatadas. Suor frio. Raiva, muita raiva.
 
  Parecia um sonho, mas era real. Adiante, envolvida numa pesada névoa, delatada por uma luz avermelhada e febril, a entidade caminhava devagar. Passion não estava numa situação favorável, ainda mais com toda aquela escuridão, mas não poderia perder aquela oportunidade, talvez única.
 
  Sua missão, sua sina, era matar aquela pessoa.
 
  Segurou o punhal, hesitou por alguns segundos e abraçou a neblina. Focou-se no ponto iluminado, turvo e confuso, mas sendo a única coisa palpável naquele momento, tinha que confiar nela.
 
  Correu, correu, correu. Segurava a adaga tão forte, tão firme, que sentiu quando o sangue escorreu pela mão e misturou-se nas trevas.
 
  Adrenalina.
 
  Mais raiva.
 
  Determinação.
 
  Queria a luz de volta, mesmo tendo nascido sem conhecê-la. O rapaz pulou com tudo quando se aproximou da figura misteriosa. Queria matá-la. Iria matá-la.
 
  Mas não foi capaz. Num instante, sentiu uma forte pressão envolver seu corpo. Ficou estático, no meio do salto, em pleno ar. Não conseguia respirar direito. A entidade se virou. Vestida em trapos que outrora fora um manto, encapuzada, tinha a aparência de uma senhora.
 
  — Que tolice, rapaz. Achou mesmo que seria tão fácil? — debochou.
 
  Ela balançou a cabeça e, numa grande velocidade, a pressão se deslocou acima da sua cabeça, jogando-o contra o solo rochoso com uma força incrível.
 
  Ferro. Gosto de ferro na boca. Foi a última coisa que pensou antes de desmaiar.

 
  Ato IV
 
  Por que ela escolheu a morte?
 
  Passion não entendia. Quando enterrou seu pai, alguns meses antes, que sempre foi tão inexpressivo e distante, não sentiu nada. Mas ela, por sua vez, sempre foi carinhosa, amando-o de alguma forma. Chorou antes, durante e depois do sepultamento.
 
  Estava de luto.
 
  Com quinze anos, sozinho no mundo, o que faria? Por que a luz tinha sido roubada? Sua mãe lhe contara tudo, dos dias de sol, do calor humano e das risadas. Até que, do nada, uma entidade, nascida do ódio humano e munida unicamente duma lamparina mágica, surgiu e acabou com aquilo tudo.
 
  Naquele dia, assim que enterrou sua mãe, deixou seu coração com ela. Sentiu-se bem, de fato, com um sentimento novo que ardia em seu peito.
 
  Ódio.

 
 Ato V
 
  Aquele zumbido, pequeno, mas insistente, acordou-o. Lembrava uma mosca, mas era algo mais profundo, interno e perturbador.
 
  — Acordou, querido?
 
  Imerso na escuridão, via apenas os contornos do rosto da senhora, que segurava a lamparina no colo, quase abraçando-a. Tentou encará-la, porém, uma força opressora obrigou-o a desviar o olhar.
 
  — Eu te odeio... — sussurrou ele, cabisbaixo.
 
  Ela ficou em silêncio. Em seu rosto, desenhou-se um sorriso malicioso, cheio de deboche e falta de respeito.
 
  — Aí está um sentimento que conheço tão bem — decidiu comentar, após alguns minutos de quietude. — Foi a causa do meu nascimento. Foi a causa disso tudo. Você sabe o que é uma guerra? Fora dos livros e das bocas, claro. Sabe? Claro que não. Tudo o que sabe é a paz. A ingratidão anda junto com a ignorância.
 
  Já não sorria mais quando terminou seu monólogo.
 
  — Vamos, levanta-se, precisamos continuar — declarou ela.
 
  De mãos amarradas, com uma espécie de coleira no pescoço, sentiu as palavras da anciã soarem como ordens inevitáveis. Obedeceu sem questionar. Passion se levantou, ainda atormentado pelo zumbido.
 
  Em ritmo vagaroso, atravessou uma ponte de madeira aos pedaços, um vale em plena trevas e um monte rochoso com ruínas de outrora. A entidade, ainda segurando a lamparina com fervor, ficava sempre na frente. Logo, uma fonte de iluminação surgiu na linha do horizonte.
 
  A Fogueira das Paixões.

 
Ato VI
 
  Quando deixou sua cabana para trás, afastada de tudo e todos, e conheceu o mundo, surpreendeu-se: quase todos eram iguais ao seus pais.
 
  Submissão. Inação. Abnegação.
 
  As pessoas se acumulavam ao redor de fogueiras gigantescas, esperando pela “benção” da entidade que salvou o mundo da guerra. Às vezes, em raros momentos, deparava-se com alguém diferente, que tinha um brilho no olhar, mas eram encontros breves, que desapareciam tão rápido quanto a felicidade.
 
  Andou por muito tempo, sem rumo, procurando por algo que não existia. Nada fazia sentido. Era isso que sua mãe sentia? Essa ausência de propósito? Por que tinha que viver daquele jeito? Sentindo impulsos, vontades, porém, sem destino certo.
 
  O ódio, aos poucos, foi crescendo. E de muda transformou-se numa poderosa árvore.
 
  A humanidade estava definhando, assim como aconteceu com a única pessoa que amou. Quem era o responsável por aquilo? Tinha aquela figura misteriosa… Viu-a bem de longe numa Fogueira das Paixões, sugando a luz do coração de crianças e jovens, num ritual macabro, repassando-a para as chamas que queimavam ininterruptamente com a promessa que estava mantendo a paz no mundo.
 
  Era ela.
 
  Como resgatar aquilo que fora roubado? Queria sentir o calor do Sol. Queria amar e ser amado de volta. Pensou por muito tempo nisso e percebeu, enquanto observava a copa de algumas árvores mortas, que só tinha uma solução viável: destruí-la.
 

 
  Ato VII
 
  Não pensava em nada, nem conseguiria, caso tentasse, pois aquele zumbido, fundo n’alma, continuava intenso.
 
  Entrou no vilarejo aos tropeços. As pessoas o observavam enquanto cruzava a tortuosa rua. Impassíveis. Apáticas. Mesmo em silêncio, Passion sentia que a anciã se divertia com aquilo. Com o dedo anelar em riste, ela indicou um palanque imundo e em ruínas. Obedeceu, totalmente dominado.
 
  Diante o calor do fogo, diante aqueles olhares sem vida, diante o sorriso debochado da senhora, o rapaz não resistiu: chorou o ódio que sentia. O silêncio reinou quase unanimemente, pois, de fato, apenas o crepitar da fogueira e os soluços de Passion o desafiava.
 
  Aquilo não era justo, pensou ele, finalmente.
 
  — Vejam, crianças. Contemplem essa figura lamentável. Toda essa dor, todo esse sofrimento... Tudo o que vocês abandonaram — discursou a anciã, andando até o cadafalso. — Muitos entendem, viveram a época das guerras, vinte e sete anos não é muito tempo, mas, jovens, olhem bem: é isso que o conflito representa.
 
  Pela primeira vez, sentiu pena no olhar dela. Preferia o escárnio e desprezo. Sentiu a raiva queimar na garganta
 
  — Eu te odeio… — sibilou Passion, encarando-a ferozmente. — Eu odeio todos vocês! Eu odeio esse mundo! Odeio! Odeio!
 
  Gritou, vociferou, amaldiçoou, até ficar com a voz seca e engasgar. Fitou o ambiente, mais cansado que nunca, aprofundou-se nos olhos da guardiã e notou, pela primeira vez, que eram lindos. Cor de Lilás.
 
  Estava derrotado.
 
  — Não se preocupe, criança. Irei libertá-lo — declarou ela, por fim.
 
  Num movimento rápido, a anciã ergueu a mão, com um vigor inacreditável, mantendo a palma virada para cima. Passion sentiu aquela pressão de antes, já íntima, envolver seu corpo mais uma vez e levantá-lo no ar. Paralisado, observou o chão se afastar, até pairar bem acima da fogueira.
 
  Terror. As labaredas pareciam cobras famintas tentando alcançar suas pernas. Sentiu todo o rancor acumulado da humanidade fluir junto com o calor, penetrando sua pele, queimando seus pulmões, deixando-o sem ar e esperança.
 
  E então, num estranho contraste, uma bela canção ecoou pelos barracos improvisados, pelas ruelas insalubres, alcançando os ouvidos chamuscados do rapaz. No fim, ela cerrou o punho, com tamanha força que seus ossos estalaram, e Passion caiu.
 
  Acho que assim será melhor, pensou ele, momentos antes das chamas o engolirem.
 
  Ledo engano.
 
  Queimou, numa dor alucinante, por longos minutos. Aquela fogueira, aquelas labaredas de fogo, personificavam a pior versão do ser humano. Eram sádicas, então, com vida própria, torturaram-no com perícia e devastadora calma. Sentiu o sofrimento de toda uma geração, teve sua carne derretida, seus ossos torrados. E, mesmo depois de morto e sem corpo, continuou sofrendo, não com dores físicas, não mesmo, tornou-se alvo das mais diversas martírios da alma.

 
  Encerramento
 
  Estava mui cansada.
 
  Caminhou por aquela terra devastada por milênios, até trazer, por fim, a paz que o mundo merecia e que a humanidade havia tomado. Num triste dia de Inverno, a lamparina rompeu, caindo no chão em mil pedaços e libertando a luz da estrela-mãe e leves resquícios das paixões humanas. Sua magia tinha esgotado.
 
  Sentada no chão, presenciou as chamas das fogueiras extinguirem enquanto aquela maldade, aquele ódio que a criou, forçando seu nascimento naquele mundo desprezível, reapareceu com mais força.
 
  Todo seu trabalho, todas as almas que purificou através do fogo, tudo mesmo, foi em vão.
 
  Mesmo não sendo atingida pelo tempo, poderia ser vítima da lâmina. Morreu esfolada, esfaqueada e queimada, ironicamente numa estaca de carvalho, sentindo-se traída pelo destino. Antes de desfalecer e sumir para sempre, lembrou daquele menino, que deu nome a si mesmo, e de tantas outras pessoas que ajudou.
 
  E o mundo voltou a ser o que era antes dela.


Total de Palavras: 1767 palavras
TEMA: Fogueira

 
 




 
  

 
DTRL Desafio de Terror Rascunhos Literários
Enviado por DTRL Desafio de Terror Rascunhos Literários em 09/08/2019
Alterado em 09/08/2019


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